Elizabeth Bishop
Não é difícil de aprender a arte de perder
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que sua perda não traz desastre.
Perca algo todos os dias. Aceite o susto
de perder chaves, de perder tempo.
Não é difícil de aprender a arte de perder.
Depois pratique a arte de perder mais rápido mil outras coisas:
lugares, nomes, onde planejou suas férias.
Nenhuma perda trará desastre.
Perdi o relógio de minha mãe.
A última, ou a penúltima, de minhas casas queridas.
Não é difícil aprender a arte de perder.
Perdi duas cidades, entes queridos.
Pior, perdi alguns reinos, dois rios, um continente.
Perdê-los trouxe saudade, mas não desastre.
- Até perder você (a voz que ri, os gestos que amo).
Não posso mentir: não é difícil.
Não é difícil aprender a arte de perder
por mais que a perda - anote isto! - pareça desastre.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
sábado, 10 de maio de 2008
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Veja, de novo...
O discurso jornalístico anda tão viciado, tão Veja, tão obviamente sem análise profunda e ofensivo à valores divergentes que qualquer matéria de outro tipo é bem-vinda, só por ser diferente. Uma defesa da manutenção das favelas ao invés de sua demolição - de exemplo -, por mais não-estruturada, por mais ilógica, por maior que for a distância entre seus argumentos e as possibilidades do real, eu aceito! Eu compro a briga. Só para ver uma idéia além de "as favelas deixam o Rio feio" "Vamos salvar nosso Cartão Postal". Até o discurso da segurança pública já me impacienta. Outro dia uma amiga dizia o mesmo a respeito da política estudantil na Unb. Disse-me já começar a acreditar na votação paritária só por ser diferente, só por ser outra coisa. O fato é que o excesso de qualquer visão infarta. A ponto de não se esperar do novo ser bom ou ruim. Apenas que seja refrescante.
terça-feira, 15 de abril de 2008
É engraçado nós esperarmos sempre que todas as reações nos atinjam de imediato, quando muitas delas, mesmo a raiva, e o medo, que são as mais apaixonadas, podem demorar horas, dias ou qualquer outra medida de tempo para se manifestar claramente. Através de uma imagem, ou de uma sensação, como uma paisagem, um vento no rosto. Um cheiro ruim. Já tive vezes em que desatei a chorar no meio da rua com uma lembrança que, na hora acontecida, não me provocou nada que me tirasse da indiferença. Há um imediatismo da nossa formação, a formação da nossa geração. Chega a ser possível que só percebamos o prazer das nossas relações muito depois, quando pensamos ou falamos sobre elas. Tão atribulados estávamos em fazer com que fossem prazerosas. Nesses casos não sei se está tudo bem o prazer vir depois, através da lembrança, ou se ele poderia ser parte do acontecimento, caso eu não estivesse tão ansioso pelo minuto seguinte. Ultimamente estou sempre em dúvida se é preferível dizer alguma coisa ou apreciar simplesmente o silêncio.
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Bloqueio
Onde coloquei esta história? Onde está, onde está? Onde a perdi, como ela sumiu de mim? Será que ainda a guardo comigo? Talvez eu a tenha deixado cair nos arquivos velhos e empoeirados, estranhamente reluzentes da memória esquecida.
Os arquivos trancados, emperrados com a falta de uso, empilhados uns sobre os outros, próximos demais, apertados demais. Prestes a cair daquela imensa janela circular remendada com toras de uma madeira apodrecida - o único lugar por onde o sol pode entrar.
Exageradamente afastados da escada. Pelo risco de que um visitante qualquer, vítima de um tropeção em um dos livros não lidos no tapete, usasse a alça de uma das gavetas para se sustentar.
Como outra vez aconteceu a minha tia Vera, no mezanino do meu avô, aleijando a velha empertigada, que passou o resto da vida conciliando aquele nariz empinado com um mancar ridículo. E nunca participou de aventura nenhuma, porque se recusava a "se misturar"
Será por isso que a história ficou aqui?
Os arquivos trancados, emperrados com a falta de uso, empilhados uns sobre os outros, próximos demais, apertados demais. Prestes a cair daquela imensa janela circular remendada com toras de uma madeira apodrecida - o único lugar por onde o sol pode entrar.
Exageradamente afastados da escada. Pelo risco de que um visitante qualquer, vítima de um tropeção em um dos livros não lidos no tapete, usasse a alça de uma das gavetas para se sustentar.
Como outra vez aconteceu a minha tia Vera, no mezanino do meu avô, aleijando a velha empertigada, que passou o resto da vida conciliando aquele nariz empinado com um mancar ridículo. E nunca participou de aventura nenhuma, porque se recusava a "se misturar"
Será por isso que a história ficou aqui?
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Tomada de Consciência
Descobri recentemente que sofro de uma timidez crônica com personalidades e seus respectivos públicos.
Dia de Poesia
Laura Moreira
"Quando é dia de poesia
Eu tenho vontade de sair correndo.
Pegar o telefone, ver um amigo, beber, trepar,
Qualquer coisa que tire isso da cabeça.
São dias que um nada faz chorar
E um olhar opaco é uma violência.
Um filme fotográfico que imprime
As minúsculas coisas da vida.
Os dias de poesia são os piores,
A poesia sufoca.
E então tudo comove, angustia, excita, desespera
E eu quero fugir, muito mesmo.
Porque poesia é morte
E mergulhar é morrer um pouco.
As vezes eu tenho coragem
As vezes eu viro o rosto
E finjo que não é comigo.
Muitas vezes eu viro o rosto e finjo que não é comigo.
Eu adoro quem diz que poesia é bonitinha
E os olhos brilham e dão logo um suspiro de amor.
E tem inveja dos poetas pelo gênio, sensibilidade, glamour.
Esses nunca leram poesia
E se leram nunca comeram poesia e respiraram poesia e choraram poesia
Quando a poesia vem
A gente tenta sempre pensar em outra coisa
Qualquer coisa, porque é um cansaço.
Porque ser poeta é um cansaço.
A poesia é suja e feia que nem sexo é sujo e feio.
A poesia escorre pelo queixo e mancha a roupa,
Vem com o orgasmo e lambe a orelha.
A poesia é bêbada e dorme sempre com o rosto na sarjeta.
Ser poeta é amar o feio, o torto, o disforme
Porque poesia é torta, feia e disforme,
Retrato da vida.
Ser poeta é amar o que é
Sem excentricidades."
Talvez seja pela intimidade dos amigos, ou pela identificação, mas penso que as poesias da Laura ficam muito mais vivas quando entoadas pelo Ferdí.
"Quando é dia de poesia
Eu tenho vontade de sair correndo.
Pegar o telefone, ver um amigo, beber, trepar,
Qualquer coisa que tire isso da cabeça.
São dias que um nada faz chorar
E um olhar opaco é uma violência.
Um filme fotográfico que imprime
As minúsculas coisas da vida.
Os dias de poesia são os piores,
A poesia sufoca.
E então tudo comove, angustia, excita, desespera
E eu quero fugir, muito mesmo.
Porque poesia é morte
E mergulhar é morrer um pouco.
As vezes eu tenho coragem
As vezes eu viro o rosto
E finjo que não é comigo.
Muitas vezes eu viro o rosto e finjo que não é comigo.
Eu adoro quem diz que poesia é bonitinha
E os olhos brilham e dão logo um suspiro de amor.
E tem inveja dos poetas pelo gênio, sensibilidade, glamour.
Esses nunca leram poesia
E se leram nunca comeram poesia e respiraram poesia e choraram poesia
Quando a poesia vem
A gente tenta sempre pensar em outra coisa
Qualquer coisa, porque é um cansaço.
Porque ser poeta é um cansaço.
A poesia é suja e feia que nem sexo é sujo e feio.
A poesia escorre pelo queixo e mancha a roupa,
Vem com o orgasmo e lambe a orelha.
A poesia é bêbada e dorme sempre com o rosto na sarjeta.
Ser poeta é amar o feio, o torto, o disforme
Porque poesia é torta, feia e disforme,
Retrato da vida.
Ser poeta é amar o que é
Sem excentricidades."
Talvez seja pela intimidade dos amigos, ou pela identificação, mas penso que as poesias da Laura ficam muito mais vivas quando entoadas pelo Ferdí.
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